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Felipe Loureiro

@FelipePLoureiro

Sep 22

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1/ A situação atual da Guerra da Ucrânia ultrapassou um ponto crítico: não há mais alternativas possíveis sem riscos muito significativos para a ordem internacional. A questão é saber quais alternativas trazem riscos cujas consequências negativas sejam “menos” piores.

2/ O curso que o Ocidente rico parece que seguirá é o de pagar pra ver a ameaça nuclear de Putin. Ou seja, EUA e aliados continuarão a apoiar militarmente a Ucrânia na sua contraofensiva, mesmo após os referendos ilegais que a RUS reconhecerá em quatro províncias ucranianas +

3/ O risco desse caminho, claro, é o de Putin escalar ainda mais o conflito, chegando ao impensável cenário do uso de armas nucleares. Ou seja: territórios UCR passarão a ser oficialmente RUS (sob perspectiva de Moscou), justificando sua defesa c/ “todos os meios disponíveis” +

4/ A outra alternativa é não pagar pra ver se Putin está blefando. Nesse caso, EUA e aliados diminuiriam ou até parariam de apoiar militarmente a Ucrânia, o que tenderia a inviabilizar a contraofensiva de Kiev, fortalecendo a possibilidade de negociação de um cessar-fogo +

5/ O risco aqui é o de não só legitimar a guerra de conquista que Putin começou, como incentivar Moscou e outros governos revisionistas a partir para ações semelhantes no futuro. Seria algo semelhante ao que a chamada política de apaziguamento fez com a ALE nos anos 1930 +

6/ É fácil defender a 1a alternativa qdo o pior cenário nela envolvido (uma guerra nuclear) ainda parece uma perspectiva distante; quase inimaginável. O problema é que não é mais, infelizmente. Sim, não há evidências de que Moscou tenha mudado seu estado de prontidão nuclear +

7/ O verdadeiro teste, porém, começará a partir deste final de semana, quando os referendos ocorrerem nos territórios ocupados. A partir daí precisaremos monitorar a situação com muito cuidado. O problema é que a escalada retórica já chegou a níveis preocupantes demais +

8/ Biden, Macron e outros terão que ter muita coragem política se quiserem recuar após os discursos feitos na Assembléia Geral das Nações Unidas. Nem falo de Zelensky, cuja posição, como presidente ucraniano, é mais do que compreensível. Os demais, não. Estão em outra posição+

9/ Alternativas péssimas, riscos significativos, dias e semanas difíceis a frente. Angústia para todos que estudam Relações Internacionais e gostariam de estar discutindo tudo menos guerra, ainda mais com tantos desafios hercúleos que a humanidade enfrenta hoje.

Felipe Loureiro

@FelipePLoureiro

Historiador | Professor Relações Internacionais USP | Coordenador Observatório da Democracia no Mundo @OdecUsp | Pesquisador @inct_ineu | felipeloureiro@usp.br

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